PONDERAÇÕES SOBRE O ISOLAMENTO SOCIAL
O primeiro ponto que devemos abordar e que abre caminho para as ponderações que pretendemos fazer sobre o insistentemente chamado isolamento social, diz respeito ao que está no cerne de qualquer discussão sócio-cultural das ciências antropológicas da modernidade. Esse ponto nodal, por assim dizer, está na questão incontestável de que somos em essência, seres sociais.
Mas o que vem a ser um ser social à final de contas? Embora as respostas a essa pergunta possa ter incontáveis desdobramentos, vamos nos ater a um ponto constitucional da formação do sujeito dentro da perspectiva do desenvolvimento psicológico. É quase uma unanimidade nas ciências psicológicas que o homem, o sujeito é, em grande medida, o resultado de uma espécie de “deflexão” do Outro. Mas o que isso quer dizer? Quer dizer que o Ego (o EU) se estabelece ou se forma, por assim dizer, a partir de sua interação com o outro, não necessariamente em forma de um simples espelhamento do outro, mas sim como resultado de dessa ação defletida. O bebê no inicio de sua vida não se vê como alguém diferenciado da mãe, mas pelo contrário, ele percebe a si mesmo como uma extensão da mãe e sente seu próprio corpo como uma continuação do corpo materno. É a partir dos seis meses, mais ou menos, por meio de suas sensações de conforto e desconforto, de tensões e relaxamentos, intrinsecamente ligados aos imperativos fisiológicos e aos contatos físicos com a mãe depois com os outros membros de família, que esse pequeno organismo biológico vai se constituindo como sujeito, vai se tornando um Ser em interação social. É através de sua interação com o coletivo que esse sujeito vai se transformando em um indivíduo característico e único, uma psique específica, com seus contornos e cores próprias.
É possível imaginar agora, depois desta breve explanação, como é difícil para uma pessoa, a exigência radical do isolamento social. Está na constituição daquilo que nos faz humanos, o contato social, a interação psicoemocional e física uns com os outros. Somos constitucionalmente seres sociais e isso não é questão de polêmica em nenhum segmento das ciências, fomos feitos para estarmos junto e, sendo ainda mais poetizado, somos feitos uns para os outros. Como conciliar nossa natureza coletiva com a necessidade do isolamento social? Neste momento da nossa história temos que nos afastarmos como prova de amor a nós mesmos e aos outros.
Diante da exigência do isolamento social devemos então buscar alternativas que possam nos ajudar a ir, por um breve momento, na direção contraria ao que nossa natureza constituinte nos impele. Por esse motivo devemos falar de uma alternativa que tem se mostrado muito eficaz, que é a tecnologia, ela tem sido uma grande aliada para suportarmos o isolamento. Não que ela possa substituir a presença física de outro ser humano, mas ela (a tecnologia) é um paliativo necessário e oportuno no sentido de nos ajudar a não rompermos, incidentalmente, os laços sociais e também de assegurar certa “mobilidade” social que nos garanta um bom nível de saúde mental nestes tempos de excepcionalidades. Os aplicativos, as plataformas digitais e as redes sociais, que eram motivo de preocupação para alguns, vem se mostrando cada vez mais útil a nossa sociedade. Por isso não se preocupe tanto, ainda avançaremos muito como sociedade, porque é sabido que as adversidades são os degraus das conquistas! Fique bem, fique em casa!
Alessandro Junio de Oliveira Cunha é Oficial do CBMGO
Psicólogo Especialista e Psicanalista do NIAB